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terça-feira, 17 de junho de 2008

Dia Quatro ou Apostas ganhas

Está um dia glorioso! Talvez seja da noite bem dormida, mas o que é certo é hoje tudo me parece mais nítido, colorido, brilhante. Saímos do quarto ás 11h00, com o sono em dia e esfomeados. Corremos para o Albert mais próximo - o supermercado cá da zona - e comprámos tudo o que nos encheu o olho. Era altura de um pequeno-almoço reforçado no Vondelpark com direito a uns muffins gigantes bem fresquinhos que encontrámos numa das padarias de rua mais requisitadas. O cenário perfeito: relva, um lago, patos, árvores e comida apetecível. À nossa volta, uma mãe babada brincava com as suas filhas louríssimas, um pai de fato corria atrás do filho endiabrado (e louríssimo), um casal passeava dois cães de água enormes e brincalhões e uma rapariga (louríssima) preparava um mega-piquenique com vinho e bolos incluídos. E nós deliciámo-nos com o melhor pequeno-almoço de sempre ao som dos patos, dos risos das crianças e dos nossos risos. Este ambiente bucólico no meio da cidade faz-me lembrar as jantaradas de erasmus nos parques de Madrid de que sinto tanta falta. Já tentei importar esse conceito para Lisboa, mas não funciona. Não estamos habituados a sentar-nos na relva e a desfrutar de uma pausa a cem por cento. Nós, mediterrâneos por excelência, andamos tão acelerados que nos esquecemos dos prazeres simples. É verdade que a cidade das sete colinas não é o sítio ideal para pedalar, por exemplo, mas temos tantos espaços verdes votados ao abandono e tantos outros mal afamados que é uma pena. Também não temos o hábito tão saudável dos madrilenos e catalãos de encher as esplanadas depois do trabalho e preferimos fechar-nos a sete chaves em casa com medo sabe-se lá do quê. Se eu já passo a vida a tentar contrariar estes costumes, agora que vejo como se vive bem em Amesterdão ainda tenho mais vontade de remar contra a maré. O mais impressionante é que as casas têm as cortinas abertas durante todo o dia e quem passa na rua consegue ver o interior sem que ninguém pareça incomodado com isso. Há um respeito natural pelos outros que dispensa estas barreiras. E depois há as bicicletas, os mercados de rua, os sofás à porta de casa onde se sentam a ler um livro ou a conversar com amigos. É surpreendente como as pessoas parecem descontraídas e confiantes. Ontem, vi uma senhora muito bem arranjada nos seus cinquenta, sessenta, maquilhada e de saltos altos a pedalar e a falar ao telemóvel! Já para não falar naquelas que carregam os filhos, as compras, a mala, as flores à frente ou atrás da bicicleta ou nos rapazes que levam a namorada ao colo e continuam a pedalar sem dificuldade. Acho que me habituava depressa a este estilo de vida urbano em harmonia com a natureza. Haverá algo mais sábio do que equilibrar saúde, ecologia, bem-estar, trabalho e lazer na mesma balança?
Deixámos o Vondelpark e fomos para a Museumplein. O Rijksmuseum tem uma parte fechada ao público e só o vamos visitar se sobrar tempo e realmente nos apetecer. Nas redondezas, há ainda o Museu dos Diamantes, cujas visitas são de graça, e o Museu Van Gogh por onde vamos começar. Afinal, o impressionismo é a minha corrente artística preferida e nunca tive oportunidade de ver de perto a obra de nenhum dos seus mestres! Os impressionistas foram os primeiros a captar a essência do momento irrepetível, a força da luz, o movimento fugaz. Eram apaixonados natos, loucos, visionários. E Van Gogh foi (quase) um autodidacta, que teve a felicidade de viver em Paris no momento certo e conhecer as pessoas certas. O talento revelou-se com a perseverança e é pena que a consagração tenha tardado tanto. No fim, não resistimos e fomos à loja do museu. Comprei alguns postais e uma réplica de um quadro da fase oriental de Van Gogh.
Cá fora, o sol continuava intenso e eu queria procurar aquelas esplanadas que vi ontem de passagem. Fomos sem pressa e quando demos conta já estávamos em Waterlooplein. Da primeira vez que ali passámos não nos apercebemos que tínhamos o rio Amstel a nossos pés! A um passo do famoso mercado desta praça, fica a sala de ópera Stopera, o Museu Histórico dos Judeus e a Sinagoga Portuguesa. E muito, muito perto do local onde tirámos umas belas fotos ao rio fica o bar/esplanada mais giro de toda a cidade: De Jaren. No terraço com vista para o rio, desfrutámos de um fim de tarde delicioso, enquanto saboreávamos uma cerveja. O melhor é que este espaço tem preços muito simpáticos para a média da cidade e petiscos de fazer crescer água na boca.
O sol estava cada vez mais baixo e era o momento certo para visitar o Red Light District. Tinha algum receio, porque o D. não consegue largar a câmera e a zona não tem a melhor das famas. À medida que o sol se escondia por trás dos edifícios, as luzes vermelhas tornavam-se mais convidativas e as ruas que ladeavam as montras mais vistosas enchiam-se de homens. Nós caminhamos devagar, mas ficámos um pouco desapontados. Imaginámos um cenário glamouroso, em que as meninas esculturais tentavam seduzir os transeuntes. Em vez disso, deparámo-nos com umas raparigas muito pouco predispostas para jogos de sedução, muitas vezes a falar ao telemóvel e em poses nada sexy! Concordo com a lei holandesa, que permite a prostituição dentro de portas e proíbe a prostituição na rua. Quer se goste, quer não, ela existe em todos os cantos e mais vale regulamentar, do que assumir uma postura hipócrita e condenar. Todas as partes saem beneficiadas: o Estado ganha um novo imposto, elas ganham em segurança a todos os níveis e os clientes também. Em troca, as profissionais do sexo estão obrigadas a exames periódicos em nome da saúde pública e os donos destes espaços também enchem os bolsos. E o mesmo se passa com as coffeshops e o comércio de drogas leves sujeito a impostos. 100% de consciência, 0% de hipocrisia! Ali, encontrámos a estrada (beco) mais estreita de que há memória e o Bulldog original, criado em 1975.
Aproveitámos os últimos raios de sol, para procurar um restaurante que servisse algo típico e parece que acertámos! Nas últimas noites, temos andado ás aranhas e com a ideia fixa de poupar dinheiro. Como estamos sempre esfomeados e em cima da hora de fecho, o nosso cérebro perde o senso e fazemos sempre escolhas disparatadas. O De Beiaard é uma cervejaria com petiscos holandeses e cervejas para todos os gostos. Só para contrariar, pedimos vinho tinto porque achámos que caía melhor com a tábua de queijos. Espero que os deuses da cerveja não se chateiem e não nos preguem nenhuma partida. Vamos, finalmente, provar as famosas Bitterballen, uma mistura de almôndegas com croquetes. E, com sorte, ainda há tempo para uma tarte de maçã. Logo, conto o resultado destas iguarias!

Dia Três ou Os mortos-vivos

A luta com o intruso na noite passada tirou-nos o sono e não conseguimos sequer recuperar da maratona turística do dia. E, quando eu não durmo ou não como o suficiente, fico tão irritada que ninguém me atura. Mas não há mau humor que resista ao encanto desta cidade! Ao fim de alguns minutos junto aos canais, o stress deu lugar a um estado de contemplação pura. Almoçámos demoradamente num banco de jardim a ver os barcos a passar e partimos à descoberta da zona comercial. No cruzamento da Heiligeweg com a Kalverstraat encontrámos um dos monumentos preferidos do D.: a Diesel Store. Entrámos como em todas as cidades por onde temos passado e comecei a sentir-me observada. Subi para o piso dois para ver a colecção feminina e, quando estou a descer para o rés-do-chão, vejo-o a conversar animadamente com um dos empregados. Qual não é o meu espanto quando os ouço a falar português com sotaque madeirense! Tinham andado no mesmo colégio em miúdos e já não se viam há seis ou sete anos. O novo (velho) amigo veio para a Holanda fazer carreira no futebol, mas as barreiras falaram mais alto e o sonho ficou pelo caminho. Depois apaixonou-se por Amesterdão e por aqui ficou. Chama-se Diego, é natural do Curaçao, foi parar à Madeira por causa da bola ainda criança e diz que quer voltar para lá... um dia. Saímos da loja com a promessa de uma grande festa na noite seguinte e continuámos o nosso passeio.
Precisávamos urgentemente de algo que espantasse o sono e decidimos entrar num daqueles barcos que fazem uma visita guiada pelos canais. Começámos perto da Damrat e corremos toda a zona antiga da cidade, Red Light incluído. Passámos por esplanadas apetecíveis que ainda não tínhamos visto, por uma faculdade e por uma série de outras coisas que eu teria visto se não estivesse de olhos fechados! O sol estava tão forte e o barco era tão abafado, que acabei por me deixar embalar. O D. ia falando comigo, apontava para ali e para acolá e eu acenava com a cabeça sem dizer uma palavra. O que vale é que ele tirou dezenas de fotografias e depois vou poder ver com calma o que perdi... De regresso à Damrat, estávamos ainda mais moles do que no início, mas cedemos à tentação de nos alaparmos numa esplanada. Em vez disso, continuámos a caminhar em direcção a Jordan, para ver a casa onde Anne Frank se escreveu o diário da sua clausura. Pelo meio, ainda provámos as famosas batatas fritas de rua e entrámos no Magna Plaza, uma antiga central de correios que se transformou num centro comercial imponente.
O dia acabou como começou: com uma grande dor de cabeça. Fomos para o nosso novo hotel de malas aviadas - a minha em mísero estado porque tive de forçar o cadeado que teimava em não abrir - e encontrámos um quarto mínimo e por limpar. Lá tivemos que adiar uma vez mais o descanso e aguardar que a recepcionista desse conta do recado. Nem acredito, que estou deitada! O quarto é tão pequeno que temos de economizar espaço e coordenar-nos para nos conseguirmos mexer. esta vez, não há mesmo lugar para intrusos! Amanhã, logo veremos....

Noite Dois ou O quarto assombrado

Definitivamente, não estamos com sorte! Como disse na primeira noite, o Bema Hotel ficou muito aquém das nossas expectativas, mas estava tão cansada que cai na cama como uma pedra. Confesso que dormi muito bem e acordei sem dificuldade com o cheiro a torradas e chá. O pequeno-almoço foi servido no quarto, enquanto eu esfregava os olhos no edredão. Comemos com prazer a admirar a vista: o Concertgebouw brilhava à luz do dia, o jardim em frente ao Rijksmuseum enchia-se de turistas e os locais passeavam-se de bicicleta cheios de estilo. Como não tínhamos jantado a sério, na noite anterior, não trocámos mais de duas frases entre torradas com manteiga e doce, ovos, golos sôfregos de chá e murmúrios de satisfação.
Seguiu-se uma visita exaustiva à cidade, sob o lema "se nos perdermos, tanto melhor." Depois de muitos km de chão, regressámos ao ponto de partida. Não queríamos mais do que uma cama e um travesseiro macio para esticar o corpo. Porém, não estávamos sozinhos! Mal apagámos a luz, começámos a ouvir um ruído esquisito entre o arranhar e o amarrotar. A princípio pensámos que era no quarto ao lado. Fizemos uma vistoria à procura da fonte - possivelmente um insecto - e voltámos a apagar a luz convencidos de que não era nada. O barulho recomeçou em seguida e o D., ao acender o candeeiro, gritou: "O filho da mãe está no teu saco!" Nem podia acreditar: tínhamos um (ou seriam mais?) rato no quarto. Agora, batia tudo certo! O caixote de plástico com o letreiro "Não deixe comida fora deste recipiente.", a pressa do empregado em recolher o tabuleiro de manhã, a simpatia desmedida da recepcionista... Já nem me lembrava que tinha um resto de pão no saco e o Bema Mouse não perdeu tempo e fez o gosto ao dente enquanto tentávamos dormir! Resolvemos atirar o saco pela janela para acabarmos com a praga de uma vez por todas. E, antes de nos entregarmos a descanso, fizemos uma última vistoria que nos deu cabo dos nervos: o nosso companheiro roedor (ou um dos seus amigos) escondera-se atrás das malas. O D. passou-se e eu fiquei meia histérica, meia inerte. Não sabia sequer que tinha medo ou nojo ou lá o que era aquilo de ratos. Ele convenceu-me a deixar o quarto e encarregou-se de tirar de lá tudo o que nos pertencia não fosse o Bema Mouse fazer das suas. A mim cabia-me a tarefa de acordar o recepcionista e contar o sucedido. O rapaz ficou mais aturdido por o ter despertado do que surpreendido com a história. Da conversa surreal que tivemos nessa noite só me consigo lembrar deste trecho: "Oh, God! Amsterdam is full of mice. I had some in my old house and I lived well there. Are you sure you want another room?"
Deixámos o hotel na manhã seguinte com os trolleys pesados na mão e o dinheiro nos bolsos. Esta curta estadia não deixou saudades e, como recuperámos todo o dinheiro, fomos em busca de melhor. Decidimos ficar no bairro dos museus e começámos a bater à porta. Tudo cheio e demasiado caro. Ás11h30, deram-nos sinal verde no Quentin Hotel e estávamos tão fartos de arrastar a tralha que nem pensámos duas vezes.

Noite Dois ou Um italiano nos Paises Baixos

Há tantos italianos por metro quadrado em Amesterdão, que a cabámos por esbarrar num deles. A nossa primeira opção era o Cobra, junto ao Rijksmuseum, que, segundo o guia, é "uma excelente mostra da cozinha holandesa." Batemos com o nariz na porta, porque havia lá uma festa e fomos pregar para outra freguesia. De volta à Leidseplein a razar as 22h00, o Ristorante Pepino conquistou-nos pela variedade e pelos preços acessíveis. O D. pediu Tortellini Gratinado e eu fiquei-me pelo Tagliatelle À La Putanesca. Já comi melhor, mas fiquei bastante satisfeita e sem espaço para as panquecas com que sonhei toda a tarde!

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Noite Um ou O Primeiro Repasto

O Manchester ganhou nas grandes penalidades e o meu estômago continuava a dar horas. O Cristiano Ronaldo também devia estar com dores de barriga a julgar pelas lágrimas que derramou por ter falhado um penálti. O bar onde vimos o jogo já tinha a cozinha fechada às 22h00. Os restaurantes onde batemos à porta quando a partida terminou também. Indicaram-nos o De Knijp* e nós não nos fizémos rogados. Comemos duas entradas deliciosas de tamanho mínimo. Não porque a fome fosse pouca, mas a carteira pedia moderação. Eu escolhi lasanha de peixe e o D. nacos de borrego, que até hoje estamos para saber de que parte do bicho eram. Ele está maravilhado com a cerveja - desta vez, Amstel - e eu esperei até ao fim da refeição pela minha bebida. No fim, pagámos €10 cada, porque o couvert não se pagava e a minha bebida nunca chegou. E assim, começa a nossa aventura na terra das bicicletas, dos canais e (porque não?) dos rapazes giros!

* Van Baerlestraat, 134
www. deknijp.nl

Noite Um ou A Primeira Desilusao

Aterrámos em solo holandês à hora exacta. A fama do aeroporto não o desfavorece em nada. Schiphol é tão imponente e movimentado quanto dizem, mas é fácil andar por lá sem perder o norte. As malas não demoraram mais de vinte minutos e num instante estávamos na plataforma para apanhar o combóio. Vinte minutos depois, chegámos ao centro da capital, mais concretamente à caótica Centraal Station. Os avisos pendurados por toda a parte exigem precaução: "Beware of the pickpockets!" As bicicletas espalhadas por todos os cantos, marca inconfundível de um povo que sabe viver, mostram-nos que estamos no sítio certo. E ali vai o nosso eléctrico. "Wait, wait, please. Do you stop in Museumplein?" À primeira vista, a cidade está toda em obras... O eléctrico faz um percurso sinuoso e, por enquanto, só vejo buracos e mais buracos, gruas e cimento. "Ok. É aqui."

Ah, agora sim. O Concertgebouw é belíssimo! O edifício, idealizado por Van Gendt, abriu as portas em 1888 e é considerada uma das melhores salas de espectáculos do mundo*. O interior á grandioso e o cartaz digno de respeito. Pena é não termos chegado a tempo dos famosos concertos gratuitos, às quartas ao almoço!

O Bema é já do outro lado da rua e a vizinhança parece tranquila e agradável. Já refeitos da subida das íngremes escadas, reparámos que a realidade era bem mais gasta e deslavada do que as fotografias publicadas no site do hotel. Na recepção, fomos muito bem tratados pela Nela, uma senhora com maquilhagem à drag queen muito simpática, que recebeu o pagamento adiantado de cinco noites e nos encaminhou ao quarto número 7. A desilusão devia estar estampada no meu rosto, porque mal entrámos ela perguntou-nos dezenas de vezes se não tínhamos gostado! Respirei de alívio quando ela nos deixou a sós e pude por fim dizer de minha justiça. Como já devem ter reparado, sou bastante crítica e exigente, mas será que se podia pedir mais de um quarto duplo por €70 com pequeno-almoço? Provavelmente, não e agora não havia nada a fazer. Afinal, íamos passar tanto tempo fora, que este era o menor dos nossos problemas. Soltei uma gargalhada e deixei o quarto atrás das costas. O Chelsea e o Manchester já estão a jogar e ainda temos de encontrar um bar com televisão e algo para comer...

*A fadista portuguesa Ana Moura actuou lá ontem, dia de Portugal